quinta-feira, julho 20, 2006

Amor incondicional


Graça e leveza marcam a dança de um grupo animado. Harmonicamente, os movimentos acompanham as nuances da música, ora suave, ora vigorosa. O espetáculo de rara beleza emociona os espectadores, que não contêm as lágrimas diante tamanha mostra de sensibilidade. Os bailarinos são deficientes auditivos e a maioria também sofre com algum nível de deficiência mental. Eles são internos do Asilo São Vicente de Paula, na Cidade de Goiás.

Há cinco anos, duas vezes por semana, o dançaterapeuta italiano Pio Campo ensina dança aos moradores do asilo, utilizando o método desenvolvido pela bailarina argentina Maria Fux. “O método internacional Maria Fux propõe mudanças por meio do movimento criativo, qualquer que seja a condição física ou psíquica. E ajuda a encontrar motivações para se aceitar, ter confiança e crescer.”

“Utilizamos a dança para sair da solidão, do isolamento, dos esquemas rígidos criados à nossa volta. Dançamos para aceitar as diferenças e descobrir a riqueza de quem é diferente. A dança que nasce na aparente imobilidade de quem está na cadeira de rodas, no silêncio de quem não ouve, no escuro de quem não reconhece o seu corpo. Dançar para dizer: sim, posso. Dançar para viver.”

Para desenvolver seu trabalho, Pio utiliza mímica e alguns objetos, como cadeiras e um elástico, para se comunicar com o grupo. Os movimentos são sincronizados e é difícil acreditar que aquelas pessoas não estejam ouvindo a música. De acordo com o especialista, na dançaterapia para deficientes auditivos o movimento nasce no mundo que os rodeia. “Utilizamos a música silenciosa que está escrita ao nosso redor. O silêncio é cheio de formas e pode ser dançado.” Os 30 bailarinos de Pio têm a expressão leve, são sorridentes, e cada um se comunica através de uma linguagem própria, desenvolvida de acordo com suas limitações. Assisti-los é um privilégio e uma lição de vida.

Freira é a mãe de todos

O Asilo São Vicente de Paula existe na Cidade de Goiás desde 1909 e atualmente tem 106 internos idosos. Cada doente traz consigo uma história de dor e abandono. Todos foram rejeitados pelas respectivas famílias e a maioria foi acolhida pela freira
Gabriela Guedes Coelho, que faleceu há 23 anos, deixando em seu lugar a dominicana Maria Aspásia Lisboa.

Irmã Aspásia, atualmente com 74 anos, não tira férias há 23 anos, desde que assumiu a direção do asilo. E nem pode, pois ela é a mãe de todos os internos. Na maior parte do tempo sozinha, ela ensinou aos portadores de deficiências leves a tomarem conta dos casos mais graves. “Eles me ajudam. Os menos doentes dão banho, vestem e penteiam os cabelos dos que não têm condições de se cuidar sozinhos.”

Ao fugir de casa para ser freira, a adolescente mineira não imaginava que tantas pessoas dependeriam do seu amor para sobreviver. Nos últimos 53 anos, irmã Aspásia morou em vários Estados e era diretora do convento do Rio de Janeiro quando a amiga Gabriela a convidou para conhecer a Cidade de Goiás. “Ela me apresentou aos pacientes e me ensinou como administrar o asilo. Dois meses depois, Irmã Gabriela faleceu, vítima de câncer, e tive que assumir o seu cargo. Minha vida mudou radicalmente.”

A freira ressalta que seus pacientes são especiais. “Eles não são abandonados, são de Jesus. Para manter a harmonia do asilo, o segredo é a higiene rigorosa e a boa alimentação, por isso, eles raramente adoecem.” O amor de irmã Aspásia e dos voluntários também é fundamental, tanto que nenhum dos internos precisa tomar medicamento forte. “Eles são excepcionais, mas têm sentimentos nobres.”

A solidariedade dos voluntários é um dos fatores que contribuem para o sucesso do trabalho de irmã Aspásia. “Temos artistas, professores e pessoas da comunidade que, além de ajudarem com doações materiais, desenvolvem diversas atividades recreativas e artesanatos. O trabalho do Pio, por exemplo, é maravilhoso e tem trazido inúmeros benefícios para o desenvolvimento deles.” Um grupo de voluntárias confecciona belas bonecas de pano que se parecem com Cora Coralina e são comercializadas para ajudar nas despesas da entidade. Dentre muitos outros, o empresário Leonardo Rizzo e o médico Fernando Cupertino de Barros, atual secretário de Saúde do Estado, são alguns dos grandes colaboradores do Asilo São Vicente de Paula.

São muitas as histórias tristes, como a de uma idosa que, além da deficiência mental, ainda é paralítica. Quando era jovem, para escondê-la, a família a deixava o dia inteiro dentro de um buraco cavado no chão. Com isso, suas pernas atrofiaram. Apesar de viver na cadeira de rodas, hoje ela tem uma expressão leve e acompanha a música movimentando os
braços e as mãos.

Irmã Aspásia não tem espaço e nem condições financeiras para aceitar novos doentes. Quem quiser ajudar o asilo, doações de alimentos, produtos de higiene e limpeza, e roupas são bem-vindas. Atualmente a freira sonha em ganhar uma máquina de fazer fraldas geriátricas. “O consumo de fraldas é grande e elas custam muito caro. Se tivermos uma máquina, poderemos confeccionar as fraldas; com isso, economizaríamos muito.”

No último domingo de cada mês, a freira promove um almoço comunitário com os colaboradores da instituição. “São mais de 50 famílias, e cada pessoa traz um prato. A banda da PM toca alegres músicas dançantes, e todos se divertem; é uma alegria para nós.” A incansável irmã Aspásia é alegre, cheia de vida e tem muita disposição para o trabalho. “Gosto muito daqui. Nosso universo é muito bonito e aqui estamos protegidos do mundo lá fora.”
*Matéria publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - em 06 de abril de 2003
Obs. 1 - Uma pessoa se comoveu com a reportagem e doou a máquina de fazer fraldas para o Asilo São Vicente de Paula, no dia seguinte à publicação, mas me pediu para não ter seu nome divulgado.
2 - Irmã Aspásia Lisboa faleceu no último Natal (dezembro de 2005). Teve uma parada cardíaca enquanto dormia, e os doentes sentiram muito. A ordem Dominicana enviou três freiras para continuarem o trabalho de irmã Aspásia.

3 - Esta reportagem percorreu diversos lugares e foi parar até no convento das Domincanas na Itália. Também foi indicada para o Prêmio Ethos de Jornalismo, não venceu, mas conseguiu ter destaque entre as melhores reportagens da Região Centro-Oeste, do ano de 2003.

3 comentários:

Anônimo disse...

Matéria linda! Fiquei seu fã.

Davi

Anônimo disse...

Ainda bem que no mundo ainda pessoas como a Irmã Aspásia. Que Deus a tenha.
Juliana

Peterson disse...

Dizem que as pessoas que foram justas nesta vida, geralmente têm uma morte tranquila... morrem enquanto dormem. Assim foi com esta abençoada Irmã Aspásia!
Que possamos encontrar nos Espírito Santo que nos anima (Ânima = alma) força para doarmos que seja um "pouquinho" de nós ao nosso próximo.
Naíca, linda sua matéria. Sempre com emoção, mas sem nunca perder seu senso, sua razão.
Grande beijo.