sexta-feira, agosto 11, 2006

Trajetória

Sobre o quê escrever? O tempo passava e a folha branca parecia cada vez maior, até que o velho jornalista desatou o nó da garganta e explodiu em lágrimas. Seu choro convulsivo, contido por quase um século, atravessou a noite e lavou sua alma. O dia amanhecia e João foi andar pela praia, onde deitou-se embaixo de uma árvore e adormeceu.
No sonho, veio a distante infância. Filho de diplomata, o menino teve o privilégio de morar e estudar em vários países, conhecendo assim, diversas culturas. A mãe era muito católica e sempre exigiu que o garoto estudasse em colégios religiosos e freqüentasse a igreja.
A família tinha muito dinheiro, mas era generosa e seguia os princípios cristãos, que nortearam os rumos do repórter durante parte da sua trajetória. Veio a guerra. O pai de João morreu em combate, a irmã de tuberculose, a mãe de desespero e o cachorro de tristeza. O mundo desabara.
Os padres adotaram o pobre órfão adolescente. Revoltado e idealista, o rapaz queria gritar contra as injustiças do mundo, exigia paz e dignidade para todos. Desde cedo, traçou seus rumos e decidiu que estudaria jornalismo para ser o porta-voz dos marginalizados.
Passados alguns anos, João trabalhava em um jornal alternativo e militava em um partido de esquerda. Sempre comprometido com a justiça, nosso herói viajou por vários países. Ele não freqüentava mais os palácios e nem tomava café em xícaras de ouro, como na infância. Optou por escrever a história do povo. Conheceu favelas, presídios, prostíbulos, réus, vítimas, bandidos e mocinhos. Tomava café em latinhas de massa de tomate e, junto com os padres ensinava as pessoas a lutarem pelos seus direitos.
A vida de João ficou mais leve quando ele encontrou Maria, a fiel companheira e melhor amiga. Foi essa bela moça de gestos simples que acendeu a chama do amor no coração do revolucionário.
Não demorou muito e os monstros de farda verde-oliva deflagraram outra guerra. João reviveu momentos de dor e desespero. Perdeu a companheira, o filho que estava para nascer e a identidade.
Depois de muitos anos, apareceu outra Maria, que trouxe o repórter de volta à vida e lhe deu um filho. Mais uma vez o coração ferido voltou a pulsar. A criança e a mulher amada lhe deram coragem para continuar. Mas a imprensa já não era a mesma.
O monstro verde-oliva tinha sido derrotado. Agora o monstro se vestia de verde-dólar. Mudou a tonalidade, mas o objetivo era o mesmo: destruir os adeptos do verde-esperança. Com mulher e filho para sustentar, João se conscientizou de que idealismo não enche barriga. Editor de um grande jornal, ele fazia malabarismos para manter a empresa. Aprendeu a jogar com o poder.

Muitos anos se passaram. Apesar de tudo, o velho jornalista ainda se indignava com as injustiças sociais. Entretanto, o que mais lhe atormentava era a falta de sonho dos jovens. Olhava para a redação e imaginava o futuro do País nas mãos de profissionais desprovidos de cultura, moral, ética e valores.
Cansada do marido que só pensava em trabalho, Maria redescobriu o fogo da paixão em outros braços. Acostumado a ter tudo nas mãos, o filho de João e Maria transformou-se em um vagabundo que só pensava em explorar o pai financeiramente.
Veio a aposentadoria e João começou a escrever um romance. Era a história de um jornalista humano, ético, revolucionário, que queria mudar o mundo através de suas reportagens. Seu protagonista acreditava que conscientizando o povo e educando as crianças, os corruptos não conseguiriam se eleger, e a história tomaria novos rumos.
Em certa altura de seu texto, João perdeu o fio da meada. Não conseguia entender o que havia acontecido. Sua cabeça estava pesada e confusa, algo havia se rompido. Por que, em tão pouco tempo, todos os sonhos se perderam? O que tinha acontecido? Por que as pessoas ficaram “tão básicas” e a juventude tão vazia? Ele não conseguira mudar o mundo. Será que sua trajetória não teria valido a pena? Um nó lhe apertou a garganta e, pela primeira vez, ele chorou. Adormeceu na praia e acordou ao lado da sua primeira Maria, com seu primeiro filho no colo e a esperança de um recomeço.
Maria José Sá
17/04/2000

segunda-feira, agosto 07, 2006

Gangsta's Paradise

Videoclip de la banda sonora de la película Mentes Peligrosas



Este rap mexe muito comigo. "Gangsta's Paradise" foi tema do filme "Mentes Perigosas", estrelado por Michelle Pfifer. Um filme lindo, que conta a história de uma professora idealista que conseguiu transformar a vida dos alunos, que eram escravizados por um traficante. É uma versão moderna do não menos belo "Ao mestre com carinho" (com o charmoso Sidney Poitier).
"Gangsta's Paradise" (Paraíso dos bandidos) tem um balanço delicioso e sua letra nos leva à reflexão. Fiz reportagem policial por muitos anos e acompanhei a trajetória de alguns bandidos famosos. Eles não tinham medo de matar e muito menos de morrer. Todos morreram ainda jovens.
Confira a tradução desta música tão envolvente:

Paraíso dos Bandidos


Enquanto eu caminho pelo vale da sombra da morte
Eu dou uma olhada em minha vida
e percebo que não sobrou nada
Porque tenho farreado e estou rindo há tanto tempo
Que até minha mãe acha que meu juízo acabou

Mas eu nunca atraiçoei um cara que não merecesse
Eu, ser tratado como um imprestável
Você sabe que nunca aconteceu
É melhor que você preste atenção como está falando
E onde está andando
Ou você e tua família podem acabar marcados no chão com giz

Eu realmente odeio me enganar, mas tenho que trancar
Enquanto eles resmungam
eu me vejo na fumaça da pistola
Babaca, sou o tipo de gangster
que os garotinhos da família querem ser
De joelhos à noite
fazendo orações na luz da rua

REFRÃO:
Desperdiçando a maior parte de nossas vidas
vivendo no paraíso de bandidos (x2)
Continuamos a desperdiçar
a maior parte de nossas vidas
vivendo no paraíso dos bandidos (x2)

Olhe a situação que eles me fizeram encarar
Não consigo viver uma vida normal,
fui criado pelo estado
Então tenho que ficar com a turma do bairro
Assistir televisão demais me deixou perseguindo sonhos
Sou um bobo educado, com dinheiro na cabeça
Tenho meus dez na mão e um brilho nos meus olhos
Sou um bandido trancado no lado de fora,
um fogo de artifício ligeiro
E meus familiares estão deprimidos
então não provoque minha raiva
Babaca! Morte não é nada,
está apenas a uma batida de coração de distância
Estou vivendo a vida, vivo ou morro, o que posso dizer?
Tenho 23 anos agora, viverei para ver os 24?
Do jeito que as coisas estão indo, não sei

Me diga, porque somos tão cegos para perceber
Que aqueles que magoamos somos eu e você?

REFRÃO

O poder no dinheiro, o dinheiro no poder
Minuto após minuto, hora após hora
Todo mundo está fugindo,
mas metade não está olhando
Está rolando na cozinha
mas não sei o que está cozinhando
Eles dizem que tenho que aprender
Mas não tem ninguém aqui para me ensinar
Se eles não conseguem compreender isso,
como eles podem me alcançar?
Acho que eles não podem, acho que eles não vão
Acho que eles estão encarando
É por isso que sei que minha vida está sem sorte, babaca!

REFRÃO

Me diga, porque somos tão cegos para perceber
Que aqueles que magoamos somos eu e você?

Me diga, porque somos tão cegos para perceber
Que os únicos que ferimos fomos eu e você?

Yanni - Ethnicity Tour

YANNI TOUR

View a short video clip of Yanni's last tour, Ethnicity tour. Don’t miss this spectacular show!

Yanni, paixão da minha vida!

O maestro grego Yanni é tudo de bom! Não tenho outra expressão. Sou perdidamente apaixonada por ele. Suas músicas me envolvem completamente. Ele mistura clássico com jazz, rock e ritmos latinos e orientais, resultando numa explosão de sonoridade que invade o inconsciente e lava a alma. Dentre minhas inúmeras músicas preferidas estão "The end of august" , "Aria" , "Love is all" e "Whithing Atraction".
Para quem ainda não o conhece, eu garanto que vale a pena ouvir seus CDs e assistir aos shows em DVD. É tudo de bom, mesmo!

Paco de Lucía-entre dos aguas

1976



Paco de Lucía, para mim, é um dos maiores músicos do mundo. Impossível não se emocionar com sua guitarra flamenca. Este clip ainda é incrementado com uma percussão que dá vontade de sair dançando. E acredite: quem dança seus males espanta.